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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O Conto do Relógio



Se bem me lembro, o bordel ficava na esquina da Rua das Borboletas. Era um sobrado amarelo, com grandes janelas azuis e alguns lampiões antigos no jardim da frente. Todas as noites, de longe, ouviam-se as palavras chulas e o cheiro do perfume barato se espalhava rapidamente pelas redondezas.

Naquela manhã, eu caminhava lentamente, meio que cambaleando, sob o efeito da ressaca. Era carnaval, e na rua podia-se ver ainda, vestígios de confetes e algumas serpentinas rasgadas deixados por algum bloco carnavalesco.
Sentia-me triste. Problemas no casamento.

Voltei ao bordel para recuperar meu relógio que esqueci no quarto da cafetina. Subi as escadas, bati na porta, que logo se abriu fazendo surgir a figura franzina e patética de Pietro, uma bicha tresloucada que fazia a faxina:
__Ai, o que quer? Não vê que estamos fechados? Essa casa só abre à noite!
Com nojo eu o empurrei, e logo fui entrando aos berros. A sala ainda estava envolvida em uma penumbra impregnada do cheiro acre de cigarros e perfuminhos de camelôs. Então gritei por Zelda, até que do alto da escada aparece Amaralina, uma das prostitutas da casa -  seios fartos e cabelo aloirado descia as escadas lentamente, com a blusa entreaberta revelando o tom róseo de seu mamilo:

__Que escarcéu! O que pensa que está fazendo? Assim vai acordar a senhora.
__Oras cale a boca! Quero meu relógio que esqueci na cama da Zelda.
Esse relógio era relíquia de família. De meu avô passou para meu pai, que passou a mim.
Amaralina continuava:
-Que relógio? Não sei de nada.
-Não se faça de tonta, sua vagabunda... você sabe de tudo por aqui, é a preferida dela.
-Nossa, meu bem, como está nervoso!? Aposto que brigou com a esposinha, não foi?
Quase meti a mão na cara dela, embora a infeliz estivesse certa. Eu estava mesmo preocupado, e com a pulga atrás da orelha como se costuma dizer.
Há alguns meses o comportamento de Clara estava muito esquisito. Ela saía muito, e sempre bem vestida, não me dando nenhum tipo de satisfação, quando na verdade esse comportamento deveria ser meu, afinal, EU ERA O HOMEM!!
-Vê se não enche e chama sua patroa.

Meio sonolenta, Zelda desce as escadas metida em um hobby de cetim vermelho, cabelos presos com uma fivela, e já com a piteira na mão, aproximou-se.
-O que quer homem com todo esse escândalo? Esqueceu que somos crias da noite?
Por um momento esqueci meu relógio, senti uma tontura e acabei vomitando ali, no meio da sala. Amaralina virou o rosto, levando a mão à boca numa expressão de asco. Pietro gritou como só uma bicha sabe fazer. Saiu resmungando, mas logo voltou e limpou toda a porcaria.

Logo Zelda me levou até seu quarto pedindo a Pietro que me trouxesse um chá.
-Olhe, fique por aqui até melhorar. Não me faltava mais nada agora, só cuidar da bebedeira dos homens...
-Quero meu relógio... Resmungava num sussurro.
-Fique quieto, preciso ir, vou cuidar de negócios. Acho que vou admitir mais uma rapariga hoje.
Logo fechou a porta, e eu deitado pensava:" -carne fresca"! Eu era mesmo um cafajeste.
Cochilei por alguns minutos, mas logo acordei com um toque de campainha. Abri os olhos, virei de um lado, virei de outro, sentei na cama. Ouvi vozes... "deve ser a tal moça", pensei. Resolvi então levantar e espiar cautelosamente, agachado ali no andar de cima na beira da escada. Eu estava certo, era a tal moça. Estava de costas. Que corpo! Que cabelos! Eram ruivos! Eu adorava uma ruiva. De repente, perdi o equilíbrio e caí da escada, rolando até o último degrau. E então, com os olhos arregalados com o rosto petrificado, com a boca escancarada e no braço o relógio espatifado-  me dei conta da catástrofe que se abatera sobre mim.
A nova moça do bordel era Clara!

By Lu Cavichioli


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