Sejam bem vindos

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Conversa de Vitrine - Epílogo


Caindo na Real




  Uma hora após Dona Clarice deixar a loja, consegui sem ser notada mudar a posição algumas vezes, contendo o desespero em sentir que a qualquer momento minha bexiga entraria em erupção.

Lembrei que hoje é sábado e o movimento do shopping é maior, e perto do almoço aumenta, é minha chance de escapar.  – Penso em agonia.
O entra e sai da loja é constante, com um alívio penso que a agitação faz com que ninguém note minha presença.

Anne está entretida com suas vendedoras e clientes. Sinto que chegou a hora e decido colocar um ponto final nessa história. A próxima cliente que entrar e todas estiverem novamente ocupadas, desencaixo meu pé da base saindo em disparada. Quando notarem minha ausência, estarei longe e usando minhas roupas.
Sinto-me ofegante ao escutar passos entrando na loja.
- É agora! - Eu penso.

-É aqui, galera. – Escuto uma voz familiar.
Isabelly volta com a galera como prometido.
- Qual é a manequim “Belle” que se mexeu? – Pergunta o baixinho da galera.
- Essa inteira de rosa. – Isabelly responde apontando em minha direção.

- EI MENINAS?!!  - Grita uma voz estridente na entrada da loja. – Acabou a folia, liberem passagem que Lady Kelly chegou.
- Lady, por favor, aqui! – Diz Anne acenando para o travesti mais lindo que já vi.  Seu rosto era mais perfeito que as manequins do shopping inteiro, seu perfume exalava com delicadeza e seu cabelo dourado contrastava com seus belos olhos verdes.

- Crianças liberem passagem, por favor, acaba de chegar novos manequins para minha vitrine, e preciso de espaço. – Ordena Anne.
- Xiii, a tia surtou! – Diz um dos amigos de Isabelly.
-Incomodariam em esperar lá fora, ou voltar mais tarde? – Diz Anne com delicadeza.

-Tia Anne, preciso mostrar a manequim que se mexeu para meus amigos. – Repete Isabelly manhosa.
- Eu sei meu anjo, prometo que mais tarde pode se divertir com seus amigos.
- Tudo bem tia Anne, volto mais tarde. – Vamos lanchar galera, voltamos depois.
 – Tchau Lady. – Diz Isabely sorrindo e acenando.
- Beijos de purpurina pra você e seu pai minha criança! –  Berra Lady no meio da loja!
- Cruzes, os feromôneos dessa juventude são intensos. – Lady solta uma gargalhada que contagia a loja.
- Uffa! - Escapei pelo gongo, penso aliviada!
- Venha gato. – Lady ordena um rapaz másculo e bronzeado a carregar os manequins.
Atrás do jovem musculoso entra mais alguns  carregando manequins desmontadas.
  Sinto que é minha chance.

Desta vez olho para frente para ver se ninguém me observa, com cautela giro a cabeça para trás e noto que estão todos distraídos. Os subordinados de Lady me ajudam em grande estilo tapando a visão de todos que estão no fundo da loja.

 Tiro meus pés da base, sinto um alivio na minha sola, o vaso que Dona Clarice havia afastado continua no mesmo lugar, dou um passo fora da vitrine, do lado de fora tem um certo agito, uns adolescentes andando em massa ocupados com seus celulares, olho mais uma vez para o fundo, Lady está gritando com um dos grandões, não penso em mais nada, então saio em disparada. Lembro que deixei minha roupa no banheiro para deficientes ali no primeiro andar.

Continuo correndo, mas não quero descer a primeira escada rolante porque daria de frente para a  loja  “Mais Rosa” .  Enquanto corro, “atropelo” as pessoas e vou ouvindo xingamentos e reclamações, mas continuo com energia. Avisto outra escada rolante, me alegro em saber que logo mais estarei trocada e pronta para ir embora. A tentação em olhar para trás é irresistível, olho e me satisfaço em descobrir que não estou sendo seguida, volto minha visão para frente e... PLOFT!
- Sua piranha, não olha por onde anda?! – Grita a voz que me perseguiu por toda a manhã.
Trombo com Isabelly, e juntas caímos ao chão.

- É ELA! – A manequim, que eu disse estar viva, pegue-a gigante – Berra Isabelly .- Considero ser seu segurança ,então a muralha engravatada vem ao meu encontro.
Levanto apressada me esquivando dela, me jogo para cima do gigante, e quando seus braços inclinam -se para me agarrar, eu escorrego passando por baixo das pernas dele.
Em ritmo acelerado e na ausência de meu juízo, roubo o sorvete das mãos do amigo baixinho de Isabelly,  jogando-o por cima dela.
- Seu imbecil, vá atrás dela e a traga para mim. – Ela ordena a Muralha de gravatas.

Desço correndo a escada rolante, tento soltar minha peruca para não ser encontrada com facilidade, mas nada adianta pois ela está tão firme que exige paciência para isso.

- EU VOU TE ENCONTRAR, NÃO ADIANTA FUGIR!
Gritos de Isabelly ecoam pelo saguão do shopping.

Não olho para trás dessa vez, só corro em direção ao banheiro do primeiro corredor perto da entrada principal, e rezo para que minha roupa ainda esteja lá.
Quando entro no banheiro meu desespero aumenta em notar a fila maior do que imaginava.
A ideia que Isabelly possa ter me visto entrar e vir atrás de mim, me apavora. Preciso agir rápido.
 Minhas roupas estão no último banheiro e ninguém irá deixar eu passar na frente.

Em um sobressalto tenho uma ideia, maluca mas é a única no momento. Me afasto da fila e começo a tirar minha peruca, meu vestido ficando, apenas de lingerie e histericamente começo a me coçar e gritar:
- Socorro, socorro,  preciso usar o banheiro! – Cambaleando entre as mulheres e crianças da fila, me coço em desespero alegando ser alérgica a camarão.
- Eu preciso, preciso entrar, me desculpem, mas quando tenho essas coceiras não controlo meu intestino e tenho medo que contaminem vocês, com licença.

- Ecaaa, que nojo! – Escuto a voz vinda do fundo.
- Quem me garante que você está dizendo a verdade? – Me enfrenta a adolescente na ponta da fila.
- Quer fazer o teste? – Pergunto, me aproximando dela e coçando freneticamente meus braços e pernas.
- NÃO, sai pra lá sua bexiguenta . – Afasta- se da fila uma senhora com suas filhas gêmeas.

Estou encenando bem. – Penso aflita com a ideia de que Isabelly apareça a qualquer momento.
Continuo com a interpretação da coceira, jogando minha peruca por cima das mulheres da fila, escuto gritos de asco, sinto alívio no couro ao soltar meu cabelo, e quando a porta do banheiro abre saio em disparada. Sem mais obstáculos acredito que deu certo. Abro a tampa do suporte que guarda o papel toalha e para minha sorte encontro minha roupa dentro do saco plástico, intacta.

Visto  finalmente roupas confortáveis : meu jeans azul escuro, meu baby look azul celeste e meu all star branco, penteio o cabelo, óculos escuros, respiro fundo e saio com passos apressados para não ser interrogada por ninguém.
Quando chego na porta para sair, sou abruptamente jogada para trás, e caio sentada.
- Eu sei que você entrou aqui, o gigante te viu. – Diz Isabelly com a voz enjoada.

- Isa, você derrubou uma garota. – Uma ruiva amiga de Isa me ajuda a levantar. – Isa não diz nada a respeito.
Ela não me reconheceu. – Penso aliviada.
E saio o mais rápido possível caminhando em direção a saída.

 Ao me aproximar da saída o sensor abre as portas, refletindo o sol em meus olhos. Antes de partir meu coração pede para fazer uma última coisa.
Diante da Loja “Menina Mulher”   Denise é o destaque da vitrine.
Com lágrimas brotando em meus olhos, digo:

- VOLTAREI PARA TE BUSCAR, MINHA AMIGA!




Fim


Lu Cavichioli & Patty D’Oliveira






Nenhum comentário:

Postar um comentário