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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Conversa de Vitrine - ato VI

Sentindo na Pele




Enquanto caminhava entre os meus amigos de fibra alegres e desavisados, esboçava um caminho de fuga.
Estava amanhecendo e eu deveria ir embora, mas como faria isso?
Coloco meu pé na escada rolante seguida de Denise e logo atrás vinha Andy. Eles andavam em direção à loja “Mais rosa”.

 Enfim chegamos à porta da loja mais purpurizada do shopping, Denise tira do bolso da sua jaqueta o grande molho de chaves e encontra a chave rosa, me olha esboçando um sorriso doce. Abre a loja e com sua mão plástica faz sinal para eu entrar na “minha loja”. Eu entro trêmula e sem ter a mínima noção do que farei.
 Passando direto pela vitrine, Andy me diz:
Ei mocinha, aonde vai? – Precisa voltar antes que amanheça e você endureça no meio da loja.

Olho para ele como uma manequim petrificada sem conseguir sorrir e volto para onde ele aponta.
-Nossa Antonella, só tem lugar no fundo?!  Porque te colocam tão escondida? – Replica Denise olhando para o fundo da vitrine.
Levo meus olhos para onde Denise está olhando e me preocupo por só ter o fundo disponível. Outras manequins se posicionaram em seus lugares e não era minha intenção ficar no fundo, preciso estar perto da saída para fugir com facilidade.

- Não tem problema, posso trocar. – Respondo preocupada.
- Eu te ajudo. - Disse Andy trocando uma cadeira pink aveludada, levando- a para o fundo, deixando um espaço para mim na frente.
-Ei pessoal, agradeço a ajuda e a companhia, podem voltar para suas vitrines. - Digo sorrindo antes de entrar na vitrine.
Denise me olha séria, me abraça rapidamente e sai apressada.
-Falta pouco. – Penso aliviada.

Denise e Andy caminham para fora da loja e algo que não tinha pensado acontece: Denise tranca a loja novamente.
-E agora?! – O desespero aumenta. – Como sou desavisada! Serei pega pelo dono da loja, chamarão a polícia e serei presa por invasão.
 Assustada em meus devaneios de medo, me assusto com um alarme alto e a voz de Andy ecoa pelo corredor:

- Depressa bonecos e bonecas, corram para suas lojas, este é o primeiro sinal que a segurança abrirá as portas, hoje nos atrasamos.
Depois que o alarme silencia, algumas luzes começam a acender, eu ainda estou fora da vitrine pensando onde me esconder.
- Vai ficar aí até petrificar? – Escuto uma voz fina próxima a mim, olho e vejo Penélope.

 – Sai pirralha, que a poltrona é minha! - Ela diz com arrogância.
Penélope me empurra com seu cotovelo, entra na vitrine, senta e cruza as pernas na poltrona macia. Ela está realmente exuberante dentro de uma mini – veste de paetê prata e rosa, um tomara que caia e uma sandália prata com pedrarias em cristais que ajudavam a disfarçar seu sexto dedo.

- Você não deveria estar na loja “Divas”?  -Pergunto confusa.
-Não devo satisfação a uma pirralha como você, mas como ficarei aqui o dia todo sem fazer nada eu digo:
- Fui trocada com outra manequim, a dona dessa loja estava louca por mim, precisava de uma diva na vitrine dela.
O asco tomou conta de mim no mesmo segundo, ela deve ter notado minha expressão e continuou sem se importar:

Penélope



- Sobe ou a segurança irá te pegar.
Não tive outra alternativa e subi na vitrine. Encaixei meu pé na base que sustenta um manequim, escolhi a posição menos desconfortável, olho para Penélope mais uma vez para me inspirar e me assusto.
Penélope está endurecida na poltrona!
Escuto passos se aproximando, então mudo a posição. Abaixo levemente a cabeça porque sei que não conseguirei ficar imóvel por muito tempo.  
Escuto molho de chaves, a porta abre, luzes acendem.
Identifico os passos e o som vem através de  um salto alto, acompanhado de um perfume doce e a voz rouca , já reclamando:

- Aquela destrambelhada não me ajuda em nada, quer sociedade e não chega um dia cedo!

O telefone toca.

- “Mais Rosa”, bom dia! Sim, sou eu Anne... Oi D. Clarice, estou bem, e a senhora? –
Houve um silêncio e fico imaginando qual seria o assunto, enquanto Anne ouve Dona Clarice. Ouço um som de gavetas e o molho de chaves antes de Anne retornar a falar:
- Por que está pedindo de volta a manequim e a poltrona?
O silêncio ecoa novamente.

- Sinto muito Dona Clarice, já arrumamos a vitrine ontem, a manequim e a poltrona já estão acomodadas como destaque, não posso e não quero mudar isso.
Anne caminha lentamente enquanto escuta Dona Clarice.
Eu tenho vários outros manequins, troco se quiser, mas a que pegamos ontem com a poltrona é impossível. – Anne diz com antipatia.
Anne caminha para o fundo da loja e sua voz fica distante.
- Venha Dona Clarice, fico no aguardo, estou abrindo a loja, passo um café para nós, e quando chegar a senhora pode escolher a manequim que preferir, exceto a que trocamos ontem.

Anne desliga e resmunga alto com a voz meio rouca:
- Essa senhora acha que não tenho nada para fazer, fica brincando de troca-  troca, e agora terei que desmontar toda minha vitrine novamente por causa de um capricho ridículo desses...
Anne para ao lado da vitrine, agacha ao meu lado, e recolhe um papel amassado que está perto dos meus pés. Com meus olhos paralisados no chão observo sua mão bronzeada com as unhas feitas e neste momento prefiro não respirar com medo de ser notada e sinto uma imensa vontade de fazer xixi.

- Bom dia! – Uma voz alegre de menina soa pela loja.
- Bom dia “princesa”. – Responde Anne com satisfação.
- Preciso de um vestido novo tia Anne. – Repete a voz que consigo distinguir ser adolescente.
- Com certeza, me acompanhe docinho. - Anne sorrindo caminha até a porta da loja, seguida pela garota, saindo da loja e ficando em frente à vitrine.



Isabelly


- Já me decidi. – Retruca a mimadinha entrando na loja. – Quero esse vestido que está ali, sabe, aquela manequim de cabelinho curto. – apontando para mim.
Anne segue a garota dizendo feliz:
- Se você desejar mostro outros modelos, tenho sandálias, joias, tudo que já conhece.
- Pode mostrar tudo tia!
- Acho que não Isabelly. – Entra um homem de sapato de verniz grafite com passos elegantes, parando logo atrás de Isabelly. – Ela se vira e responde manhosa:

- É lógico que pode, tenho meu cartão e posso pagar.
- Esse cartão está bloqueado mocinha, por este mês já chega. – Ele diz repreendendo.
- Você bloqueou meu cartão pai?
- Vamos embora. – Ele ordena.
- Eu não saio daqui sem meu vestido.
-Eu parcelo Sr. – Diz Anne com a voz suave.
- Peço desculpas , mas preciso colocar um freio nessa menina.
- Mas paaaiiii! – Responde Isabelly   chorosa.
- Quem sabe no próximo mês.
- Próximo mês pai? – Eu preciso hoje deste vestido, tenho a festa da Katy.
- Não irá precisar de vestido algum, não irá em nenhuma festa. - Ele responde secamente.

- Vou sim, mamãe deixou.
- Venha, não tenho tempo para choro de criança.
-Solte-me, está machucando. –
- O Senhor tenha calma por favor, ela só uma criança.  – Diz Anne aflita.
- Gostaria que a Senhora não se metesse, o assunto é entre pai e filha!
- Me largaaaa. – Grita Isabelly.
- Vou chamar os seguranças se o Senhor não soltá-la.  –
Não resisto e dou uma virada rápida para trás para ver o que acontecido.
Vejo Anne caminhando apressada em direção ao botão vermelho que fica no canto esquerdo, no alto atrás do caixa. – Minha curiosidade é tão grande que esqueço por um segundo de voltar a posição anterior, e na tentativa de se desvencilhar das garras do pai, os olhos de Isabelly cruzam os meus.
- ELA VIROU! – Grita Isabelly.
Retorno rápido à minha posição.
- A manequim que está com o vestido que eu quero, ela olhou para mim. – Repete Isabelly.

- Deixa de bobagem garota, não é hora de piadas, vamos embora. Você já foi longe demais.
-Eu já chamei os seguranças, senhor.
- Não será preciso, estamos de saída.
Escuto vozes no rádio... Alguém se aproximando a passos apressados que logo entram na loja.
- Solte a garota. – Grita uma voz grave.
- Ela é a minha filha, e faço o que bem entender com ela. – Responde em tom arrogante.
- Tirem-no daqui. – Exalta Anne.
- Ele está me machucando. – Resmunga Isabelly
A vontade de olhar para trás é tentadora, e no momento em que pretendo fazer isso, uma senhora muito elegante para em frente a vitrine e fica admirando Penélope, em seguida a mim.
Tremo na base! Ela entra e para ao meu lado sem ainda perceber a arruaça no meio da loja.

- Saiam todos da minha frente que preciso sair com minha filha, vocês não sabem com quem estão falando! – Ordena o pai da garota.
Dona Clarice se vira para dentro da loja espantada.
- E quem é você, o Papa? – Pergunta Anne em deboche!

- Filipo Castello!
- Fi fi fi....Você é o Filipo dono do.. – Gagueja Anne.
- Ah eu odeio essa parte. –Diz Isabelly chateada.
- Sim, sou o dono do Shopping, e irei fechar essa espelunca, demitir esses trogloditas se não derem licença. – Esbraveja Filipo.
Os trogloditas se afastam.
- Realmente sua arrogância não tem limite. – Diz a Senhora que acaba de entrar.

- Vovó! – Ressalta Isabelly animada soltando- se dos braços do pai e correndo a seu encontro.
- Vovó Clarice, que bom que a senhora chegou, abraçando-a.
- Dona Clarice, tinha me esquecido da Senhora, ainda não preparei o café.

- O café fica para depois minha jovem, foi bom ter vindo aqui para presenciar mais uma cena deprimente não é mesmo Filipo?
- A Senhora sempre sente prazer quando me humilha mamãe? – Pergunta Filipo em tom desprezível.
- Parem com essa briga, por favor! – grita a menina.
- Tudo bem meu anjo, fica tranquila.
Antes de resolver o que vim fazer Anne, eu aceito um chá, pode ser? E você meu amor, me espere na loja, vá por favor.
Filipo sai emburrado, e a neta sorri beijando a face da avó.
- Tudo bem vovó, mas antes preciso verificar se a manequim está viva, eu a vi me olhando, ela se mexeu.

Dona Clarice solta uma gargalhada e diz:
- Como sempre criativa, minha princesa. Sabe Anne eu costumava contar uma história para ela chamada “CONVERSA DE VITRINE” quando era uma garotinha, e sempre que passava as tardes na loja ela dizia que as manequins conversavam com ela.
Anne e Dona Clarice caem na gargalhada.

- É verdade vovó, não sou mais criança, tenho 15 anos e ela me encarou.
Dona Clarice sorri novamente.
- Agora vá meu anjo. – Diz Clarice carinhosa acariciando o rosto da neta

 -Eu a acompanho até a porta e espero que vá direto para minha loja, lá tem aqueles biscoitos que você adora.
Antes de sair Isabelly para em frente à vitrine , me encara e diz: 

- Eu vi você se mexendo sua cara de pau, sua pele é diferente... seu braço tem pelinhos... muito estranho... E sei que está viva, mas fique calma, não vou contar (ainda) para minha vó. Mais tarde eu volto com a turma e desmascaro você.

Estremeço!

- Vá indo para a loja Isa, a vovó precisa resolver algumas coisas com Anne.
 Isabelly se afasta para meu alívio, dizendo:

- Tchau tia, sorrindo e acenando para Anne que responde carinhosa.
- Até mais querida.
- Agora somos nós duas, e quero ver qual manequim tem para me oferecer.

- Dona Clarice me perdoe, eu não tive tempo ainda de ver isso, mas a senhora fique à vontade, aprecie minha vitrine, escolha sem pressa: – Diz Anne sem paciência.
Obrigada e não esqueça meu chá.
- Irei preparar, a senhora fique à vontade... – Enquanto caminha revira os olhos num tom de deboche.

- Essas jovens acreditam que podem me enganar, começam me agradar e quando descobre de quem sou mãe... - Sempre Falsas! –Diz Clarice em voz alta me encarando.

- E você? – Pergunta Clarice.
Ela está falando comigo? – Penso aflita.
-
- Minha neta disse que viu você se mexer...  Ah, bobagem de adolescente, imagine...Onde já se viu uma coisa dessas! – E enquanto dizia isso ficava me olhando de cima abaixo.

- Ah, e agora, socorro!! Se essa mulher continuar me olhando fixamente não sei até quando vou aguentar, porque estou com uma coceira no pescoço que não suporto mais e meu pé direito está formigando. E foi aí que D. Clarice afasta um pequeno vaso branco que está encostado em mim, entra na vitrine e vem me olhar de perto. Senti um pavor tão grande que fiquei petrificada como nunca estive.

- Hummm, que manequim estranha essa, tem a pele diferente, será que já me enviaram as bonecas de exportação vindas da Coréia? Preciso verificar com a administração. – Dizendo isso, a velha senhora sai da vitrine e eu consigo puxar o fôlego.

- Dona Clarice, seu chá, por favor, sirva-se.
Anne, me explique por favor...
_Sim, D. Clarice, pode falar.
Essa manequim de peruca Chanel preta e toda rosinha é nova?
Creio que não, por que?
Nada em especial, é que ela é tão bonita e diferente, quero essa vou leva-la.

- A senhora é rápida. – Achei que íamos almoçar juntas e discutirmos a troca de manequins. – Diz Anne com desanimo.
Ah, querida, nada impede de almoçarmos juntas, quero mesmo discutir sobre essa belezinha que está na poltrona.
-  Claro, a senhora quem decide. Assim que Margot chegar e ficar aqui, passo na sua loja e vamos, está bem assim?
-Combinado, até mais.

- Meu Deus o que será de mim? – Sinto um fio de suor escorrer pela espinha. Estou com vontade de ir ao banheiro, que sufoco! Preciso fugir – penso angustiada.



Será que D. Clarice fingiu que vai levar Antonella, ou está apenas disfarçando e já percebeu que ela é humana?

Aguardem o ato VII





2 comentários:

  1. Muito bom.
    Senti o frio da manequim com a aproximação da velha senhora.
    Leitura boa e cheia de imaginações e curiosidades, que prende o leitor.
    Gostei Lu.
    Bjs

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    Respostas
    1. Oi Toninho, que prazer recebê-lo aqui no blog novo e melhor ainda saber-te leitor desse conto. rsrs
      Que bom q está gostando. Já leu as outras partes??

      abraços

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