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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Conversa de Vitrine - Ato III

 O Confronto

Antonella

Era totalmente inacreditável!
Eu, uma simples mortal, trancafiada, (ou melhor), escondida furtivamente no banheiro do shopping andando livre leve e 

 despreocupada... era bom demais  e assustador também, mesmo porque logo eu teria a mais estranha experiência da minha vida.

Saio do banheiro caminhando na madrugada do shopping, sinto que sou uma estrela de Hollywood. Posso ser o que quiser, sem nada e ninguém para me dizer o que devo fazer, vivendo simplesmente um sonho de garota, uma noite só minha -“SOZINHA NO SHOPPING”.

 Poderia realizar tudo neste sonho, coisas do tipo comprar e comprar sem parar, caminhando no salto mais exuberante que furtei da minha irmã mais velha.

 Sem pensar no pior, ouvi um barulho que vinha atrás de mim. Por impulso me virei assustada. Não tinha nada. Sorri de alívio e disse a mim mesma: _ Que boba, só pode ser coisa da minha cabeça. Continuei meu desfile, e novamente; Mais um barulho! Desta vez para minha surpresa não era atrás de mim, e sim ao meu lado, o som misturava - se com meus passos. Parei, mas os passos continuaram. O medo tomou conta do meu corpo, estremecendo na escuridão. Os passos tornaram – se mais lentos, um misto de respiração, que poderia facilmente identificar que não era a minha, pois de medo eu já sufocava. 

Lentamente virei meu rosto sem mexer qualquer outro músculo do corpo, o vulto foi aumentando ao meu lado, se transformando em uma imagem real e mais alta que a minha, meus olhos do chão foram subindo para a imagem que agora, posicionado ao meu lado, pude ver com clareza. Meus olhos não queriam acreditar na figura bizarra e petrificada que me olhava surpreso.  Gritei: - AAAAAAHHHHHH. – Corri, corri o mais rápido que pude. Meus saltos atrasando meus passos... aquilo não poderia ser real, estaria eu sonhando? Apavorada, consegui avistar alguém agachado ao lado de uma lixeira, a 100 metros de distância de onde eu estava, não queria parar com medo de ser pega, mas por instinto diminui minha corrida. Parei, olhei para trás para ver se estava sendo seguida. No entanto, eu podia vê-lo parado me observando.

 Voltei meu olhar para a lixeira, e lá estava cabisbaixa uma garota e parecia que estava chorando. Ainda ofegante pelo susto seguido de uma corrida, agachei ao lado dela encostando minha mão em seu ombro, perguntando:

-Tudo bem? -  Mas quem seria ela? Teria sido perseguida pela mesma figura que me assustou? Ou talvez abandonada pela família?

 Ainda com as mãos em seu ombro, notei que seu cabelo era estranho, um brilho exagerado, parecendo com a peruca que eu usara naquele momento. Era um Chanel ruivo, artificial demais para ser verdade.

Seria outra maluca como eu? - Foi quando ela levantou seu rosto e seus olhos azuis encontraram os meus, notei sua pele pálida, lisa e brilhante como plástico, mais parecida com uma boneca. – MEU DEUS não podia acreditar! Ela era mesmo uma manequim de vitrine, assim como o garoto que parou ao meu lado e me fez correr. Eles são manequins?!

 Eu desejava tanto fazer dessa utopia uma verdade, e agora que estou vivendo esse momento sinto um pavor incontrolável.
Será que eu estaria me tornando um manequim também? Eu só poderia estar dormindo, mas não tinha ninguém para me beliscar. Dei um pulo para trás caindo sentada sem dizer nenhuma palavra, ouvindo só as batidas latentes do meu coração.

Sem ainda saber o que estava se passando ali ouço uma voz abafada entre soluços:
-Meu nome é Denise, pelo menos é assim que me chamam aqui.  Eu não tenho certeza do meu nome, mas quando dizem Denise eu respondo.
Enquanto isso eu permanecia estática, mas não por muito tempo porque logo ouço uma voz masculina:


- E o meu é Andy. – Nesse momento olho pra cima e quem eu vejo? ELE – o engomadinho que me fez correr, e que agora me amparava para que eu ficasse em pé.

Você é nova aqui? Pertence a qual vitrine? – Perguntava Andy com seus belos olhos verdes e cabelos amarelos plastificados.

 – E.. e.. eu.. Sou Antonella. – Respondi gaguejando e afastando meu braço das mãos de Andy.  

- Não a assuste Andy ela é nova. Deixe – a conhecer o Shopping – Soluça  Denise, levantando e enxugando as lágrimas, quando olha para mim e pergunta:- Quer que eu te apresente toda a área? Você veio de que Shopping Antonella ,ou veio direto da fábrica? –

 Eu não conseguia responder, e mesmo que quisesse Denise sem mais lágrimas diz: - Eu sou da loja“Menina Mulher”, por isso uso essa roupa de adolescente. Denise vestia uma calça branca com joelhos rasgados, blusa cinza com lantejoulas pretas decorando uma estrela e um casaco curto de mangas longas, preto e brilhante com uma botinha preta de camurça de cano curto.

 Pegando minha mão, sorrindo com delicadeza, Denise me disse:
- Venha vou lhe mostrar meu lugar preferido quando quero me isolar desses babacas – e olhando por cima do ombro espichou os olhos para Andy.
- Você deve ser da loja do segundo andar a “Mais Rosa”. Estou errada? – Pergunta Denise sorrindo com curiosidade. – Não sabia o que responder, mas concordei que sim com um gesto de cabeça.

- Ei garotas, esperem por mim, exclama Andy.- Não quero ficar sozinho, daqui a pouco aparecem os roqueiros com suas guitarras desafinadas querendo me mostrar mais uma canção ilógica – Eu sou da loja “Sr.H” e por isso uso essa roupa de grife.-  Diz orgulhoso sorrindo.

 Andy usava um elegante terno slin cinza chumbo com risca de giz muito bem alinhado ao seu corpo alto e magro com uma camisa branca de linho com abotoaduras douradas e um sapato de verniz preto de bico quadrado.

Sem mais nem menos Andy, o galanteador, se aproxima oferecendo seu braço abrigando o meu. Timidamente respondo com uma negativa baixando os olhos.

 Denise solta uma risada sarcástica dizendo: - Não se preocupe com Andy, ele é chavequeiro mas não morde, só gosta de ser um conquistador á moda antiga. 
Andy sorri debochando, e não diz mais nada. Só nos acompanha em silêncio, deixando eu no meio dos dois.
–Gosta de ler Antonella? - Pergunta Denise em tom de alegria.
- Gosto. - Ainda assustada em estar andando e conversando com dois manequins vivos. – Denise sorri e continua:

- Meu lugar preferido é aqui na Livraria “O Bom de ler”, podemos ler o que quisermos, criarmos nossas fantasias, e o melhor, não existe ninguém morando aqui, ninguém para nos aborrecer dizendo que estamos invadindo seu espaço, como na loja de roupas esportes, Suor & Equilíbrio”, aquelas atletas de abdome sarado, perninhas torneadas, roupas Fitt, reclamando que estava eu usando a esteira delas. Todas falsas e artificiais. 

– Denise revira os olhos quando termina a frase:

- As garotas são fúteis, menos o Brad ,corredor. - Diz Andy sorrindo com sarcasmo olhando por cima da minha cabeça para Denise. - Sabe Antonella...Denise teve um romance com Brad que a trocou por Penélope da Loja “Divas”.

- Eu não fui trocada! – Grita Denise. - Eu  é que terminei com ele, bem antes deles ficarem juntos. Deixe ele com aquela magrela fútil que todos os dias só se veste para festas, prefiro meus livros à garotos babacas.

-Mas você mesmo já disse que ela é linda e que tem o corpo sensual.

Andy termina com um risinho maroto dizendo: - Eu concordo quando ela usa os vestidos com decotes que exibem as costas insinuando suas curvas.

Sem identificar que estou me divertindo com a situação disfarço um sorriso.
 Denise só cerra os olhos para Andy e diz:
- Por que não vai a sua lojinha preferida?
-Agora não - Andy responde me encarando. O café de lá não está mais como antes.

Denise tira um molho de chaves do bolso do seu casaco preto banhado á purpurina, procurando entre duas ou três chaves, e me mostra uma chave miúda e amarela. – Pronto! –Achei!  Fala com alegria na voz.

Entramos na Livraria e Andy já segue em direção ao quadro de força que se encontra escondido atrás de uma das prateleiras de revistas ao lado direito da porta de entrada. Em menos de trinta segundos acende-_ se toda a livraria.

 – UAUUU!  Essa foi minha primeira impressão ao entrar na livraria.
O piso era de porcelanato preto, as prateleiras exibiam o mais lindo azul que meus olhos já viram. Os livros, todos organizados por gênero e ordem alfabética.

O espaço para leitura era tão aconchegante que poderia até dormir por ali se quisesse. Nele estavam dois sofás, um de costas para o outro, dividindo o ambiente. Eles eram aveludados em tons de amarelo degradê.
Procurando a letra “R” em busca de “romance” concluo naquele momento que a Livraria com certeza é também meu lugar preferido, principalmente vazia, só eu e os livros!

- Não lhe disse? – Pergunta Denise empolgada, reparando a minha reação de alegria.

Andy passa por nós com seu andar plastificado seguindo em direção ao corredor dos livros de Direito. Para e segura nas mãos um enorme livro de Código Penal. Denise me olha e diz sussurrando: - Ele é Nerd, só gosta de leis, números e cálculos malucos.- Eu já prefiro as histórias de amor, ou até os quadrinhos infantis.

Eu sorrio e dou de ombros.
Enquanto caminho confusa, não sei se conto ou não a eles que sou humana.

 Encantada e distraída com meus romances, pulo de susto quando escuto um barulho, Denise corre para o meu lado, agacha escondendo-se atrás de mim, e novamente nos assustamos com um segundo estrondo.
Luzes se apagam...

 Eu grito!




Andy



Denise


Um  barulho não identificado
grito na Livraria...
Seria o segurança do shopping?

Aguardem o Ato IV




5 comentários:

  1. Vim conhecer o blog através da Ana. Espero tenha sucesso e realizações por aqui.
    Um beijo de luz

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    1. Olá Teca,
      muito feliz em ter você por aqui.
      meu carinho.
      Patty.

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  2. Muito legal! Que tenha muito sucesso. Bjs

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    1. Valeu Rosa minha amiga. Obrigada por passar aqui. Bjs

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    2. Valeu Rosa minha amiga. Obrigada por passar aqui. Bjs

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