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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Conversa de Vitrine - Ato V

-Vivendo Intensamente






 Toda noite é este movimento Denise?

Sem me olhar, ela me arrasta em direção ao aglomerado e diz:
- Venha conhecer a Roberta.
- Quem é Roberta? –

Ela não responde e só me arrasta em maior velocidade.
 Quando chegamos, ela para e se acomoda ao lado de Sam, olhando para o alto.
- Aquela é Roberta. – Denise aponta seu indicador liso e brilhante.
Olho em direção ao que Denise aponta e fico inconformada com o que vejo.

Andando como um espantalho, vejo uma figura com pijama de cetim púrpura, venda nos olhos, parecida com o que minha mãe usa quando viaja de avião, e o pior é que exibe os braços  abertos parecendo Jesus na Cruz.

Denise me encara dizendo:

- Ela é sonâmbula, e quase toda noite quando sai da vitrine da loja “Delírio do sonho”, inclina se no parapeito em frente à loja e fica ali, as vezes por horas.

Olho incrédula e pergunto:
- Mas o que significa? – É perigoso ela se jogar e..
 Denise me interrompe e diz:

- Ah, normal. Ela sonha ser Kate Winslet no filme Titanic. Já se jogou, e caiu sem querer inúmeras vezes. A última vez foi semana passada, pernas e cabeça trincaram. Lembra- se do pestinha do Lucca?
- Lembro! Respondo assustada.

Lucca



- Ele pegou uma perna dela quando ela caiu, e escondeu. Quando fomos remonta-la  para voltar para a vitrine de manhã, estava perneta. Dizem que uma funcionária da loja foi despedia por descuido.
- Mas acharam a perna?

- A irmã dela conseguiu uma nova perna da loja “Manca, mas não dói” de produto ortopédico e cirúrgico, infelizmente foi o melhor que conseguiu. Só que ainda manca.
-Coitada!  –A única reação que tive.
- Alguém irá tirar ela de lá? – Pergunto angustiada.
- Já fiz isso, mas ela acordou enfurecida e me bateu. 

Um segundo depois Denise me olha, cutuca meu braço com seu cotovelo     e lança seu belo olho azul plastificado por cima do meu ombro.
 Curiosa, me viro discretamente para o mesmo lugar em que Denise aponta.
 Vejo uma mulher de meia idade, com saia cinza, uma blusa de lã xadrez marrom e bege, uma meia calça marrom, e uma sapatilha cinza, seu cabelo estava com uma fivela de pérolas miúdas prendendo sua franja atrás da orelha. Seu rosto era de preocupação.
- Quem é ela? - pergunto sussurrando.
- É a Irmã Dolores. Todas as noites ela tenta nos convencer que Jesus está breve.
- Não sabia que tinha cristã por aqui.
- Tem sim, é da loja “Tenha Fé”, somente roupas evangélicas.
  ESTÁ REPREENDIDO! NÃO DEIXE SATANÁS LHE JOGAR MINHA IRMÃ. O FIM ESTÁ BREVE. – Grita Irmã Dolores, com seus braços para o alto e seus olhos fechados.

- PULA! PULA! PULA!
Os gritos não cessam.



Tio Elvis


- CHEEEGAAAA! –Escuto uma voz masculina ecoando pelo Shopping, fazendo todos se calarem.
-Ah tio Elvis! – Reclama Ed. – Estamos nos divertindo.
- Parem agora! Essa garota já sofre muito, exijo respeito!
- Esse é o Tio Elvis. Ele tem uma quedinha por Roberta. É o mais velho do Shopping, está desde o dia da inauguração. O dono da loja é um dos donos do Shopping.  -Por isso ele sente o direito de ser autoritário.
 Qual a loja? – Pergunto curiosa.
-“Elvis não Morreu” – Uma loja só de discos de Vinil de todos os gêneros e uma imensidão de acessórios e roupas do Elvis.
Segundos depois a aglomeração foi desfeita e todos seguiram para as mesas.

Tio Elvis sorri som satisfação, aproximando-se de Denise e eu.
-Elvis, a seu dispor minha jovem! – Ajoelhando se diante de mim para me cumprimentar, balançando um lenço branco no ar.
Desta vez cumprimento sem ficar corada, sinto que estou me acostumando aos galanteios.
Tio Elvis vestia uma camisa branca, uma gravata borboleta de cetim desfeita tipo de festa, um suspensório preso à sua calça de linho  e um sapato de couro preto com bico fino, e para completar seu charme um óculos de sol de lente marrom descansava em sua testa para disfarçar a careca.

Enquanto deliciava meu sorvete de pistache com baunilha, ao meu lado uma bengala é brutalmente jogada sobre a mesa, me assusto e quando olho para cima vejo uma jovem manequim com seu braço direito imobilizado com uma tala, um colete corretor postural, e em sua perna esquerda uma bota imobilizadora ortopédica. Com  piedade, levanto para ajuda- lá a se sentar. Ela me olha agradecida e se apresenta:
-Obrigada. – Meu nome é Mel. Sou da loja, “Manca mas, não dói”.
- Que nome de loja, Meu Deus! – Penso em dizer algo sobre, mas apenas me apresento:
- Antonella, muito prazer!
- Eu sou irmã da Roberta, a sonâmbula, deve ter conhecido.
- Sim, conheci.
Meu sorvete chega ao fim, e por curiosidade puxo conversa:
- Conte - me porque você e sua irmã  se separaram?
- Você é rápida hein?! – Acaba de me conhecer e já quer saber da minha vida.
 – Eu que pergunto sobre você. – Qual sua loja, de onde veio, por quais lojas morou?
- Desculpe, não quis ser intrometida.
- Vamos Antonella. - Diz Denise segurando meu braço enquanto encara Mel.
Levanto desconcertada, peço licença desejando sair dali o mais rápido possível.
- Não escute a Mel, ela é infeliz porque nunca pode andar sem que esteja  amparada pelas muletas.

Quando me levanto, vejo Roberta debruçada em uma das mesas e seu sorvete em uma vasilha laranja sendo sequestrado por Lucca.
Lucca me olha assustado quando me aproximo, e na tentativa de fugir eu o alcanço pegando- o no colo. Ele se debate tentando. - Não precisa ter medo, só quero conhecer você.
- EI, ME COLOCA NO CHÃO!!!  

Eu agacho para ficar na altura dele, sorrio e pergunto:
- Quer passear comigo?
- Você é a minha mãe?! – Ele pergunta entusiasmado.
Tenho a sensação de meu coração sangrar, mas não posso iludir a pobre criança.
- Não meu anjo, mas posso ser sua amiga se quiser.
Ed se aproxima de nós artisticamente em seu skate e diz:
- Hei, “Fofolândia”, eu vi primeiro ok?
- Fofolândia é tua vó, aquela fibra velha!

Sem coragem de encarar Ed, sorrio e me levanto segurando a mão de Lucca.

Ele veste uma descolada calça jeans azul com a barra dobrada no meio de sua panturrilha, uma camisa xadrez preta e bege e um boné laranja com a aba virada de lado, cabelo serrado e olhinhos cor de mel.
.  Lucca é um garotinho travesso, porém carente, tanto que seu sorriso  é encantador.

Enquanto eu, Denise e Lucca estamos saindo da sorveteria, Denise para e agacha atrás de mim.
Olho para baixo e digo:
- Já vi esta cena hoje. O que aconteceu agora?
- Não quero que ele me veja.
- Quem? – Eu pergunto curiosa.
- O Brad, claro! – Responde Andy em tom sarcástico se intrometendo na conversa.
- Cala a boca Andy. – Replica Denise.

Brad


 – Me ajuda Antonella, não quero que aquela garota fútil me veja.
- Levanta Denise! –Não pode se esconder deles para sempre, tem que enfrentar.
 Denise então se levanta ficando de costas para os rivais.  Enquanto eu aproveito para observar detalhadamente o casal. Meus olhos curiosos não puderam evitar a barriga tanquinho de Penélope e o corpo atlético de Brad. Os dois são perfeitos juntos!
Ele veste uma bermuda preta, uma camiseta regata amarelo fluorescente, e um tênis de corrida de uma amarelo semelhante da camiseta, o cabelo raspado preto e um boné cinza grafite, olhos verdes com aparência arrogante.
Ela exibe um short tactel  pink , um top e tênis pretos, cabelo  loiro longo até a cintura, olhos grandes e negros, lábios carnudos e vermelhos, seios fartos, cintura fina, abdômen definido e coxas torneadas.

Brad carrega duas cadeiras de praia em baixo do braço e Penélope duas toalhas felpudas e coloridas. Fico enjoada quando ela dispara um olhar prepotente sobre Denise e eu.
 - Me diz o que eles estão fazendo? – Pergunta Denise angustiada.
- Você é mil vezes melhor que eles. Digo séria. – Ele parece um vaga- lume, é um exibido mesmo!

 Denise solta sua famosa gargalhada curta de deboche.
- Brad está abrindo as cadeiras de praia e ela despindo o short e tênis.
Enquanto estou distraída narrando os movimentos do casal mais exibido do shopping, me assusto com gritos, olho em volta e Lucca não está mais ao meu lado.

- QUEIMAAAA. TÁ AMARRADO! – Diz Irmã Dolores aos berros com suas mãos elevadas ao alto.
Em meio à gritaria vejo Ed e Sam correndo atrás de Lucca, corro atrás para saber o que é e vejo que Lucca arrasta a muleta de Mel. Sinto vontade de rir, mas prefiro convencê-lo a devolver.
Alcanço Lucca , acaricio seu rosto eu digo:
- Você não pode pegar as coisas das pessoas e fugir com elas.
Ele me olha de volta com olhar triste e pergunta:
- Tia, me dá um beijo. – Eu rapidamente satisfaço seu desejo.
Em toda sua sinceridade infantil ele diz:
- Você já viu os dedos dela? –
- De quem? – Pergunto.
- Tia Penélope. Ela é chata, ela não gosta de mim, diz que sou uma peste.
- Não ligue pra ela. - Mas o que tem os dedos dela?
- Ela tem seis dedos no pé direito. Eu já contei de pertinho -Lucca afirma com precisão.

Ao escutar isso, fico tentada em ver mais  perto, mas preciso de uma desculpa pra isso. Então tenho uma ideia de brincar de pega - pega  com Lucca , correndo perto de Penélope.  - Ele aceita animado
No momento em que Lucca corre por trás de cadeira de Penélope, me aproximo fingindo brincar com ele, meus olhos vão direto ao pé dela. Sem conseguir manter o controle caio na gargalhada sem me preocupar.
 Lucca aponta para Penélope e dispara:
- Eu disse, eu disse! – Ela tem 6 dedos. – Lucca cantarola alto.
Penélope se levanta, joga a toalha em Lucca que consegue desviar habilidosamente.

Minha gargalhada aumenta, lágrimas correm do meu rosto.
Tio Elvis  se aproxima sorrindo, me entrega um lenço e diz:
- Este lenço foi do Elvis. É legítimo, estava em leilão e o Antônio dono da loja o arrecadou.
Olho para ele espantada, e só consigo dizer:
- Poxa vida. – Que orgulho hein! Escondendo um certo deboche.
- Agora ele é seu. Meu presente de boas-vindas. – Ele diz sorrindo orgulhoso.
- Não, não posso aceitar, o Sr. Antônio ficaria muito triste em perde - lo.
Denise se aproxima e cochicha em meu ouvido.
- ACEITA, ele só quer ser gentil, não existe nenhum lenço arrecadado em leilão. Ele diz isso pra todas que chegam.
Pego o lenço sorrindo e aproveito para secar o restante das minhas lágrimas agradecendo com um gesto de cabeça.
- Obrigada Tio Elvis.

Lembrando – se dos dedos de Penélope, olho para Denise, puxo a de canto e conto o ocorrido.
Denise me olha, solta sua melhor gargalhada, e entre risos diz:
- Essa foi a melhor da noite! – Nunca mais me esconderei deles.
Quando paramos de sorrir, de repente a tristeza me invade e meu sorriso aos poucos se fecha. E pela primeira vez dou conta que daqui a pouco isso tudo termina. Pela primeira vez sinto me inteira e com uma amiga de verdade.

 Olho ao redor e me divirto assistindo a grande e surreal parafernália em que me envolvi:

- Sam e Gina, os irmãos Punks com seus cabelos loucos e suas guitarras, Irmã Dolores repreendendo- os dizendo que suas músicas são invocadas por Satanás.
Roberta com seu pijama de cetim boceja enquanto caminha, Kris , a gestante xingando  provavelmente quem a engravidou.
 Melissa mancando com sua muleta pedindo a Lucca para se afastar , porque ele continuava correndo em volta dela.
 O casal antipático, Brad e Penélope emburrados, retirando suas cadeiras e toalhas afastando-se de todos.
 Tio Elvis deslizando um pente vermelho em sua careca, repetindo que já teve o mesmo topete do “Costela”.
  Vejo também Ed sensual e lindo com sua gang do “Rolê” em cima dos seus Skates.  Andy elegante como sempre sorrindo pra mim, e eu com Denise, ainda gargalhando.
Se não fosse por ela, não sei se teria  conseguido lidar com toda essa loucura.
- Denise, digo em  tom desesperado.
Ela me olha com seus olhos azuis plastificados e  felizes.
 Corro ao encontro dela e a abraço. Sentindo-me embargada e sem condições de falar apenas sussurro.
- Obrigada!
Denise se afasta sorrindo e diz:
- Eu que preciso lhe agradecer! – Lembra quando eu chorava atrás da lixeira?
-
Sim, vai me dizer por quê?

- Chorava porque minha vida não tinha mais sentido. Uma simples manequim de vitrine. Uma inerte atrás de um vidro, com milhões de pessoas felizes me encarando o dia inteiro.
Trocam minhas roupas sem eu nunca poder decidir o que vestir, e ao anoitecer tudo se repete. A mesma galera sem graça sempre.
- Sinto muito! – Exclamo com piedade.
- Mas agora você me encontrou, mostrou ser minha amiga, e sei que minhas noites serão melhores. Estou feliz! – Denise sorri e me abraça novamente.
Sinto – me totalmente arrependida, porque quando voltar à minha realidade causarei dor em Denise.

HORA DE IR EMBORAAA!
Olha em volta e vejo Tio Elvis gesticulando para todos seguirem para suas vitrines.
Desfazemos o abraço e ela sorrindo diz:
Bem... Hora de voltarmos, logo amanhecerá.
Congelo!  Olho para o meu lado esquerdo e Andy com seu olhar sedutor oferece seu braço galante novamente dizendo:
- Vamos, te acompanho até sua vitrine.
Meu coração dispara!
Aceito seu galanteio e respondo gaguejando:
- Não se incomode, irei à toalete antes. – sorrio nervosa.
- Pela primeira vez concordo com Andy. Vamos acompanha-la! -- Exclama Denise em tom alegre.
E novamente estava eu no meio dos dois. Só que agora encrencada,  muito encrencada indo em direção à “minha vitrine”.




 *O que será de Antonella agora?

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