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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Conversa de Vitrine - Ato V

-Vivendo Intensamente






 Toda noite é este movimento Denise?

Sem me olhar, ela me arrasta em direção ao aglomerado e diz:
- Venha conhecer a Roberta.
- Quem é Roberta? –

Ela não responde e só me arrasta em maior velocidade.
 Quando chegamos, ela para e se acomoda ao lado de Sam, olhando para o alto.
- Aquela é Roberta. – Denise aponta seu indicador liso e brilhante.
Olho em direção ao que Denise aponta e fico inconformada com o que vejo.

Andando como um espantalho, vejo uma figura com pijama de cetim púrpura, venda nos olhos, parecida com o que minha mãe usa quando viaja de avião, e o pior é que exibe os braços  abertos parecendo Jesus na Cruz.

Denise me encara dizendo:

- Ela é sonâmbula, e quase toda noite quando sai da vitrine da loja “Delírio do sonho”, inclina se no parapeito em frente à loja e fica ali, as vezes por horas.

Olho incrédula e pergunto:
- Mas o que significa? – É perigoso ela se jogar e..
 Denise me interrompe e diz:

- Ah, normal. Ela sonha ser Kate Winslet no filme Titanic. Já se jogou, e caiu sem querer inúmeras vezes. A última vez foi semana passada, pernas e cabeça trincaram. Lembra- se do pestinha do Lucca?
- Lembro! Respondo assustada.

Lucca



- Ele pegou uma perna dela quando ela caiu, e escondeu. Quando fomos remonta-la  para voltar para a vitrine de manhã, estava perneta. Dizem que uma funcionária da loja foi despedia por descuido.
- Mas acharam a perna?

- A irmã dela conseguiu uma nova perna da loja “Manca, mas não dói” de produto ortopédico e cirúrgico, infelizmente foi o melhor que conseguiu. Só que ainda manca.
-Coitada!  –A única reação que tive.
- Alguém irá tirar ela de lá? – Pergunto angustiada.
- Já fiz isso, mas ela acordou enfurecida e me bateu. 

Um segundo depois Denise me olha, cutuca meu braço com seu cotovelo     e lança seu belo olho azul plastificado por cima do meu ombro.
 Curiosa, me viro discretamente para o mesmo lugar em que Denise aponta.
 Vejo uma mulher de meia idade, com saia cinza, uma blusa de lã xadrez marrom e bege, uma meia calça marrom, e uma sapatilha cinza, seu cabelo estava com uma fivela de pérolas miúdas prendendo sua franja atrás da orelha. Seu rosto era de preocupação.
- Quem é ela? - pergunto sussurrando.
- É a Irmã Dolores. Todas as noites ela tenta nos convencer que Jesus está breve.
- Não sabia que tinha cristã por aqui.
- Tem sim, é da loja “Tenha Fé”, somente roupas evangélicas.
  ESTÁ REPREENDIDO! NÃO DEIXE SATANÁS LHE JOGAR MINHA IRMÃ. O FIM ESTÁ BREVE. – Grita Irmã Dolores, com seus braços para o alto e seus olhos fechados.

- PULA! PULA! PULA!
Os gritos não cessam.



Tio Elvis


- CHEEEGAAAA! –Escuto uma voz masculina ecoando pelo Shopping, fazendo todos se calarem.
-Ah tio Elvis! – Reclama Ed. – Estamos nos divertindo.
- Parem agora! Essa garota já sofre muito, exijo respeito!
- Esse é o Tio Elvis. Ele tem uma quedinha por Roberta. É o mais velho do Shopping, está desde o dia da inauguração. O dono da loja é um dos donos do Shopping.  -Por isso ele sente o direito de ser autoritário.
 Qual a loja? – Pergunto curiosa.
-“Elvis não Morreu” – Uma loja só de discos de Vinil de todos os gêneros e uma imensidão de acessórios e roupas do Elvis.
Segundos depois a aglomeração foi desfeita e todos seguiram para as mesas.

Tio Elvis sorri som satisfação, aproximando-se de Denise e eu.
-Elvis, a seu dispor minha jovem! – Ajoelhando se diante de mim para me cumprimentar, balançando um lenço branco no ar.
Desta vez cumprimento sem ficar corada, sinto que estou me acostumando aos galanteios.
Tio Elvis vestia uma camisa branca, uma gravata borboleta de cetim desfeita tipo de festa, um suspensório preso à sua calça de linho  e um sapato de couro preto com bico fino, e para completar seu charme um óculos de sol de lente marrom descansava em sua testa para disfarçar a careca.

Enquanto deliciava meu sorvete de pistache com baunilha, ao meu lado uma bengala é brutalmente jogada sobre a mesa, me assusto e quando olho para cima vejo uma jovem manequim com seu braço direito imobilizado com uma tala, um colete corretor postural, e em sua perna esquerda uma bota imobilizadora ortopédica. Com  piedade, levanto para ajuda- lá a se sentar. Ela me olha agradecida e se apresenta:
-Obrigada. – Meu nome é Mel. Sou da loja, “Manca mas, não dói”.
- Que nome de loja, Meu Deus! – Penso em dizer algo sobre, mas apenas me apresento:
- Antonella, muito prazer!
- Eu sou irmã da Roberta, a sonâmbula, deve ter conhecido.
- Sim, conheci.
Meu sorvete chega ao fim, e por curiosidade puxo conversa:
- Conte - me porque você e sua irmã  se separaram?
- Você é rápida hein?! – Acaba de me conhecer e já quer saber da minha vida.
 – Eu que pergunto sobre você. – Qual sua loja, de onde veio, por quais lojas morou?
- Desculpe, não quis ser intrometida.
- Vamos Antonella. - Diz Denise segurando meu braço enquanto encara Mel.
Levanto desconcertada, peço licença desejando sair dali o mais rápido possível.
- Não escute a Mel, ela é infeliz porque nunca pode andar sem que esteja  amparada pelas muletas.

Quando me levanto, vejo Roberta debruçada em uma das mesas e seu sorvete em uma vasilha laranja sendo sequestrado por Lucca.
Lucca me olha assustado quando me aproximo, e na tentativa de fugir eu o alcanço pegando- o no colo. Ele se debate tentando. - Não precisa ter medo, só quero conhecer você.
- EI, ME COLOCA NO CHÃO!!!  

Eu agacho para ficar na altura dele, sorrio e pergunto:
- Quer passear comigo?
- Você é a minha mãe?! – Ele pergunta entusiasmado.
Tenho a sensação de meu coração sangrar, mas não posso iludir a pobre criança.
- Não meu anjo, mas posso ser sua amiga se quiser.
Ed se aproxima de nós artisticamente em seu skate e diz:
- Hei, “Fofolândia”, eu vi primeiro ok?
- Fofolândia é tua vó, aquela fibra velha!

Sem coragem de encarar Ed, sorrio e me levanto segurando a mão de Lucca.

Ele veste uma descolada calça jeans azul com a barra dobrada no meio de sua panturrilha, uma camisa xadrez preta e bege e um boné laranja com a aba virada de lado, cabelo serrado e olhinhos cor de mel.
.  Lucca é um garotinho travesso, porém carente, tanto que seu sorriso  é encantador.

Enquanto eu, Denise e Lucca estamos saindo da sorveteria, Denise para e agacha atrás de mim.
Olho para baixo e digo:
- Já vi esta cena hoje. O que aconteceu agora?
- Não quero que ele me veja.
- Quem? – Eu pergunto curiosa.
- O Brad, claro! – Responde Andy em tom sarcástico se intrometendo na conversa.
- Cala a boca Andy. – Replica Denise.

Brad


 – Me ajuda Antonella, não quero que aquela garota fútil me veja.
- Levanta Denise! –Não pode se esconder deles para sempre, tem que enfrentar.
 Denise então se levanta ficando de costas para os rivais.  Enquanto eu aproveito para observar detalhadamente o casal. Meus olhos curiosos não puderam evitar a barriga tanquinho de Penélope e o corpo atlético de Brad. Os dois são perfeitos juntos!
Ele veste uma bermuda preta, uma camiseta regata amarelo fluorescente, e um tênis de corrida de uma amarelo semelhante da camiseta, o cabelo raspado preto e um boné cinza grafite, olhos verdes com aparência arrogante.
Ela exibe um short tactel  pink , um top e tênis pretos, cabelo  loiro longo até a cintura, olhos grandes e negros, lábios carnudos e vermelhos, seios fartos, cintura fina, abdômen definido e coxas torneadas.

Brad carrega duas cadeiras de praia em baixo do braço e Penélope duas toalhas felpudas e coloridas. Fico enjoada quando ela dispara um olhar prepotente sobre Denise e eu.
 - Me diz o que eles estão fazendo? – Pergunta Denise angustiada.
- Você é mil vezes melhor que eles. Digo séria. – Ele parece um vaga- lume, é um exibido mesmo!

 Denise solta sua famosa gargalhada curta de deboche.
- Brad está abrindo as cadeiras de praia e ela despindo o short e tênis.
Enquanto estou distraída narrando os movimentos do casal mais exibido do shopping, me assusto com gritos, olho em volta e Lucca não está mais ao meu lado.

- QUEIMAAAA. TÁ AMARRADO! – Diz Irmã Dolores aos berros com suas mãos elevadas ao alto.
Em meio à gritaria vejo Ed e Sam correndo atrás de Lucca, corro atrás para saber o que é e vejo que Lucca arrasta a muleta de Mel. Sinto vontade de rir, mas prefiro convencê-lo a devolver.
Alcanço Lucca , acaricio seu rosto eu digo:
- Você não pode pegar as coisas das pessoas e fugir com elas.
Ele me olha de volta com olhar triste e pergunta:
- Tia, me dá um beijo. – Eu rapidamente satisfaço seu desejo.
Em toda sua sinceridade infantil ele diz:
- Você já viu os dedos dela? –
- De quem? – Pergunto.
- Tia Penélope. Ela é chata, ela não gosta de mim, diz que sou uma peste.
- Não ligue pra ela. - Mas o que tem os dedos dela?
- Ela tem seis dedos no pé direito. Eu já contei de pertinho -Lucca afirma com precisão.

Ao escutar isso, fico tentada em ver mais  perto, mas preciso de uma desculpa pra isso. Então tenho uma ideia de brincar de pega - pega  com Lucca , correndo perto de Penélope.  - Ele aceita animado
No momento em que Lucca corre por trás de cadeira de Penélope, me aproximo fingindo brincar com ele, meus olhos vão direto ao pé dela. Sem conseguir manter o controle caio na gargalhada sem me preocupar.
 Lucca aponta para Penélope e dispara:
- Eu disse, eu disse! – Ela tem 6 dedos. – Lucca cantarola alto.
Penélope se levanta, joga a toalha em Lucca que consegue desviar habilidosamente.

Minha gargalhada aumenta, lágrimas correm do meu rosto.
Tio Elvis  se aproxima sorrindo, me entrega um lenço e diz:
- Este lenço foi do Elvis. É legítimo, estava em leilão e o Antônio dono da loja o arrecadou.
Olho para ele espantada, e só consigo dizer:
- Poxa vida. – Que orgulho hein! Escondendo um certo deboche.
- Agora ele é seu. Meu presente de boas-vindas. – Ele diz sorrindo orgulhoso.
- Não, não posso aceitar, o Sr. Antônio ficaria muito triste em perde - lo.
Denise se aproxima e cochicha em meu ouvido.
- ACEITA, ele só quer ser gentil, não existe nenhum lenço arrecadado em leilão. Ele diz isso pra todas que chegam.
Pego o lenço sorrindo e aproveito para secar o restante das minhas lágrimas agradecendo com um gesto de cabeça.
- Obrigada Tio Elvis.

Lembrando – se dos dedos de Penélope, olho para Denise, puxo a de canto e conto o ocorrido.
Denise me olha, solta sua melhor gargalhada, e entre risos diz:
- Essa foi a melhor da noite! – Nunca mais me esconderei deles.
Quando paramos de sorrir, de repente a tristeza me invade e meu sorriso aos poucos se fecha. E pela primeira vez dou conta que daqui a pouco isso tudo termina. Pela primeira vez sinto me inteira e com uma amiga de verdade.

 Olho ao redor e me divirto assistindo a grande e surreal parafernália em que me envolvi:

- Sam e Gina, os irmãos Punks com seus cabelos loucos e suas guitarras, Irmã Dolores repreendendo- os dizendo que suas músicas são invocadas por Satanás.
Roberta com seu pijama de cetim boceja enquanto caminha, Kris , a gestante xingando  provavelmente quem a engravidou.
 Melissa mancando com sua muleta pedindo a Lucca para se afastar , porque ele continuava correndo em volta dela.
 O casal antipático, Brad e Penélope emburrados, retirando suas cadeiras e toalhas afastando-se de todos.
 Tio Elvis deslizando um pente vermelho em sua careca, repetindo que já teve o mesmo topete do “Costela”.
  Vejo também Ed sensual e lindo com sua gang do “Rolê” em cima dos seus Skates.  Andy elegante como sempre sorrindo pra mim, e eu com Denise, ainda gargalhando.
Se não fosse por ela, não sei se teria  conseguido lidar com toda essa loucura.
- Denise, digo em  tom desesperado.
Ela me olha com seus olhos azuis plastificados e  felizes.
 Corro ao encontro dela e a abraço. Sentindo-me embargada e sem condições de falar apenas sussurro.
- Obrigada!
Denise se afasta sorrindo e diz:
- Eu que preciso lhe agradecer! – Lembra quando eu chorava atrás da lixeira?
-
Sim, vai me dizer por quê?

- Chorava porque minha vida não tinha mais sentido. Uma simples manequim de vitrine. Uma inerte atrás de um vidro, com milhões de pessoas felizes me encarando o dia inteiro.
Trocam minhas roupas sem eu nunca poder decidir o que vestir, e ao anoitecer tudo se repete. A mesma galera sem graça sempre.
- Sinto muito! – Exclamo com piedade.
- Mas agora você me encontrou, mostrou ser minha amiga, e sei que minhas noites serão melhores. Estou feliz! – Denise sorri e me abraça novamente.
Sinto – me totalmente arrependida, porque quando voltar à minha realidade causarei dor em Denise.

HORA DE IR EMBORAAA!
Olha em volta e vejo Tio Elvis gesticulando para todos seguirem para suas vitrines.
Desfazemos o abraço e ela sorrindo diz:
Bem... Hora de voltarmos, logo amanhecerá.
Congelo!  Olho para o meu lado esquerdo e Andy com seu olhar sedutor oferece seu braço galante novamente dizendo:
- Vamos, te acompanho até sua vitrine.
Meu coração dispara!
Aceito seu galanteio e respondo gaguejando:
- Não se incomode, irei à toalete antes. – sorrio nervosa.
- Pela primeira vez concordo com Andy. Vamos acompanha-la! -- Exclama Denise em tom alegre.
E novamente estava eu no meio dos dois. Só que agora encrencada,  muito encrencada indo em direção à “minha vitrine”.




 *O que será de Antonella agora?

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Conversa de Vitrine - Ato IV

 Amigos de Fibra



Sentindo uma leve dor no braço esquerdo causada pelo aperto das mãos plásticas de Denise me agacho assustada ao lado dela. Tento relaxar e arrisco uma pergunta:

- Por que chorava escondida atrás da lixeira?

- Não se preocupe com isso agora, não é uma boa hora.
- Tudo bem, desculpe ser  tão invasiva, mas tem ideia do que possa estar acontecendo agora? 

- Deve ser o Andy pregando uma peça em nós. Ele é muito exibido, se achando o certinho, mas adora amendrontrar as garotas. Se acha mais inteligente que nós, fica tranquila.
- Você não me parece bem, está me apertando. –
Denise solta meu braço desculpando –se.  

-Meninas! – A voz grossa e robótica de Andy ecoa pelo corredor em que estamos : - Estou aqui meninas, não se apavorem, descobrirei o que está acontecendo.

-Ahh, falou o super protetor detetive! – Debocha Denise.
-Xiiuuu. - Querem ser pegos? – Calem a boca, respondo em tom ríspido, e os dois se calam.

 Ouço gargalhadas vindo de longe. ..
Tentando avistar alguma coisa me levanto sorrateira, e por um segundo penso:  - Deve ser meus pais com a polícia me procurando...  Cruzes, acho que estou enlouquecendo!

- Alí! – Estou vendo! – Gritava a voz de um garoto!
Será um maluco como eu, ou mais um manequim aventureiro da madrugada?  
 Entro em desespero e derrubo dois livros da prateleira. – Acho que alguém me viu aqui. – Sussuro para Denise.
Reviro os olhos e meio aflita penso que logo irão descobrir que sou humana. - Preciso sair daqui!

De repente, as luzes se acendem.

- Ed? – Não acredito que tentou nos assustar. - Replica Andy com sua voz robótica e grave .

- Ahh, e fazia o que agachado atrás da prateleira de romance, achei que só se interessava por lirvros  de Nerds. – Diz  Ed, sorrindo.

- Protegendo as garotas da sua zombaria, oras, diz Andy agora em pé alinhando seu terno diz num tom de cinismo:
- Confessa que ficou com medinho, seu skatista frustrado.

 Ed é um manequim de cabelos e olhos castanho claros, pequenas sardas enfeitam o rosto delicado de nariz  fino e suas bochechas rosadas denuciam covinhas enquanto sorri.
Ed vem  derrapando suave e artsticamente em cima do skate em minha direção, e sempre sorrindo diz:

- Temos amiga nova! - Ed vira a aba do seu boné para trás e continua:
 – E aê, qual  o nome desta gata? -Sou Ed como deve ter percebido, mas...  É de qual vitrine?

 Será possível que este é o único interesse desses plásticos ambulantes?- Penso comigo.
- Sou Antonella.  - Digo sorridente estendendo minha mão, que ele beija, deixando-me corada.

Andy interfere: - Chega dessa baboseira, temos que continuar oTour do Shopping com ela.

 Ed não desvia seus olhos dos meus.
- Tour? -Vou junto!

Ele usava um boné amarelo com letras pretas que diziam “Rolê”, uma camiseta preta com um raio amarelo, uma calça preta com bolsos largos e um tênis cano alto vermelho.
 –  Quer uma carona no meu Skate?- Faço o Tour com vc! -  Diz sorrindo e subindo no seu skate. – Senti novamente meu rosto corar e com olhos no skate respondo:

- Acho melhor não, nunca andei nisso, tenho medo!
 Por um segundo me sinto patética por achar um manequim sedutor, e que em poucas horas voltaria para sua vitrine sem vida.

-Ei galera! – Grita do lado de fora da loja outra manequim skatista de boné. Dessa vez é uma garota que derrapa seu skate para dentro da livraria. Era loura  e ostentava um rabo de cavalo, emoldurando seu rosto perfeito num sorriso azul claro. Seu nariz arrebitado lhe dava um ar de boneca viva . Usava um boné lilás, que destacava com seu shorts jeans bordado em spike, blusa roxa e tênis preto parecido com o de Ed.
Era tão linda que se parecia mais com uma manequim de loja de princesas do que de skate.

 - Qual foi galera? – E nosso sorvete?- Diz a princesa skatista.
- Sorvete?! – Eu adoro! – Vamos Antonella? - Grita Denise logo atrás de mim.
- Vamos, adoro de Pistache! – Respondo sorrindo e olhando para Andy, mas sou recebida com um olhar frio e sem vida. – Andy desvia seu olhar de mim e sai da Livraria elegantemente sem dizer nada.

- Espero vocês na “Neve colorida”!  – Diz Ed montando em seu skate  que antes de atravessar a porta, vira a cabeça para trás, sorrindo e soprando  um beijo  que me deixou desconcertada.
- Ele gostou mesmo de você. – Diz Denise sorrindo  me arrastando para fora com os demais.
- Não fale bobagem, isso tudo é uma mentira.-  Encarando a boneca continuo:
- Preciso te contar uma coisa!
Denise me olha plastificada, para  na porta da livraria e diz com sua voz rouca e serena: - Assim você me assusta!

- Desculpa. -Digo baixinho. – Mas você precisa saber que eu ....

- Vão ficar ai paradas até amanhecer?
 Fomos interrompidas por um casal de rockeiros, ele com tatuagens nos braços , piercing na sobrancelha e queixo.Uma bandana vermelha de mini caveiras brancas que cobria seu cabelo raspado, e ela  mostrava cabelo arrepiado platinado e rosa,e um largo piercing no nariz e lábios.

- Sam e Gina, faz tempo que não vejo vocês,achei que tivessem sido transferidos de shopping. – Diz Denise seria.

- Não Deni, continuamos por aqui, só não estávamos saindo a noite da loja, estávamos ocupados compondo. Temos música nova, quer ouvir? – Sam pergunta entusiasmado.
- Mais tarde Sam.- Desculpa, é que estamos indo tomar sorvete. – Vamos juntos?

- Eu disse que ninguém se interessa por nossa música. – Diz a garota de cabelo sidecut platinado com pontas rosa em tom de antipatia.

Denise revira os olhos e pergunta: - Tudo bem Gina? 
Deixando Denise no vácuo, Gina se vira para Sam e diz:
 - Vou ao Toalet, nos encontramos na praça de alimentação.

- Credo! – Diz Denise enojada.
-Ainda bem que já conhece a figura. –  Sam sorri encabulado.

Sam é mulato,  tem olhos castanho escuro e cabelo raspado. Seu nariz é largo e os lábios grossos. Veste calça e jaqueta de couro pretas e uma camiseta branca estampada com uma caveira negra. Detalhe da jaqueta  com spike no ombro e uma corrente larga e prateada. Exibe uma bandana vermelha e um coturno preto de dar medo.

Com olhar curioso Sam vira- se para mim e educadamente pergunta:
- Posso saber o nome da baixinha?
Respondo estendendo minha mão com o rosto corado:
 - Sou Antonella.

Ele aperta com força minha mão, mas solta de imediato quando sua guitarra que descansava em baixo do seu outro braço  é jogada no chão. Eu e Denise nos assustamos dando um pulo para trás.

- Seu pestinha! – Grita Sam, correndo atrás de uma criança.
- O que foi isso? –Pergunto a Denise.
- O que? – sobre a Gina antipática e mal amada, ou Lucca serelepe?- Pergunta Denise emitindo um sorriso engraçado.

-Sobre tudo. -  O casal Punk e o fedelhinho.

- Bem... Sam e Gina são da Loja “Dark Star”, e não são um casal como pensa, são irmãos. Sam é um fofo, inteligente, músico e compositor. Gina, não  é nada, apenas a irmã de um Super Star,depressiva e mal humorada, e ele é o único que tem paciência com ela.

E Lucca é da loja  infantil “Fofolândia”. Ele é lindo, porém difícil suportar a Hiperatividade dele.

- Melhor tomarmos logo nosso sorvete,  quando o shopping fecha a máquina da nossa delícia gelada é desligada para economia de energia, se demorarmos  muito teremos que beber o sorvete. – Dou um sorriso sincero a Denise e caminho ao lado dela em direção a  "NuvemColorida” na praça de alimentação.

Não demora muito escuto uma voz reclamando atrás de nós:
- Se encontro com aquele safado, eu troco literalmente seus pés pelas mãos!

Denise e eu nos viramos, e para mais uma surpresa vejo uma jovem  gestante!

-Kris, que bom te ver! Exclama Denise.

- Oi menina. –Responde a “tal” Kris gemendo e alisando sua barriga.

- Você está bem?- Soube que estava de repouso no depósito. – Pergunta Denise, preocupada.

- Foi apenas um descanso de poucas horas com as pernas para o alto, passei mal quando as luzes da minha vitrine foram trocadas, são quente demais.

- E o bebê está bem?
- Sim, um pouco de dor as vezes, o médico do ambulatório disse que é normal algumas dores quando a pele de fibra esta sendo formada e ganhando vida. Isso acontece a noite quando saio da vitrine, mas ele está muito bem, melhor que eu.

- Fico feliz que o bebê esteja bem.- Responde Denise sorrindo como sempre.

- Mas eu ainda mato ele.-

 Eu e Denise nos entreolhamos espantadas, e ela pergunta:

- Você quer matar seu bebê?
- Não, claro que não! Mas o pai dele sim. – Aquele safado, me iludiu e quando soube que eu estava grávida, se escondeu no depósito de troca e nunca mais apareceu. Com certeza está em outro Shopping iludindo outra. Mas desejo do fundo da minha fibra  é que tenha sido desmontado e jogado pra sucata.

Denise olha pra mim engolindo uma risada, bem como eu e diz: -

Estamos indo na “Neve Colorida”, vem com a gente?

- Sim, já estava indo pra lá, mas primeiro irei ao toalete. – E que mal pergunte, a “Rosa Chock” aí é nova aqui?

- Ah sim. Desculpe Kris, não apresentei. – Essa é...

Interrompo Denise sorrindo: - Deixa comigo Denise: – Antonella meu nome, muito prazer.  Estico minha mão para cumprimenta- la.

Ela me cumprimenta e me responde tentando sorrir em meio a cara de dor: - O prazer é meu. Pode me chamar de Kris só não me pergunte o restante.

Faço que sim com a cabeça e continuamos nossa ida ao sorvete. Confesso que fiquei curiosa para saber o restante do nome, mas em outra ocasião descubro com Denise.
Quando já consigo avistar a praça e uma pequena aglomeração escuto:

PULA! PULA! PULA!

- Olho para Denise espantada e curiosa :

-O que foi isso agora?





 *quem estaria pulando?
Seria uma cama elástica ou alguém tentando se suicidar?

Aguardem o Ato V